Eldorado dos buracos
- Davi Roballo

- 30 de jan. de 2011
- 3 min de leitura
Semana passada quando transitava pelo inicio da Marcelino Pires cruzei por tantos buracos que fiquei grogue. Parei o carro e ao sair em busca de ar fresco fui surpreendido por uma voz distante seguida de um eco:
–Desculpa ai tio, foi mal.
Olhei ao redor e nada, não vi nenhuma criatura animada por perto, logo pensei, devo ter ficado louco. Mas novamente aquela voz fanha do Pato Donald se manifestou:
–Aqui tio.
–Que sacanagem é essa – indaguei. E voz respondeu
–Aqui embaixo, o buraco, o buraco no asfalto tio.
–Não acredito! Eu no meio da Marcelino falando com um buraco.
–Pode acreditar tio. Nós falamos com quem escuta.
–E o que você quer sua cratera fanhosa?
–Cratera não tio, ai o senhor ofende. Nós somos buracos.
–E que diferença existe entre cratera e buraco?
–E… tio o senhor tá por fora mesmo hein… Nós buracos somos seres ainda involuidos, solitários e impotentes, já as crateras são agremiações de buracos vaidosos e ambiciosos unidos por um mesmo ideal, a fama, capa de revista, a primeira página de um jornal.
–E isso é ruim?
–E como! Imagina só, quando somos apenas buracos de vez em quando alguém nos xinga, manda para aquele lugar, mas vamos levando nossa vidinha feliz, ninguém vem nos tapar e quando vem faz com tanto carinho que logo voltamos. Mas quando alguns metidos caem na conversa mole de que unidos seremos mais fortes vira tudo cratera e então eles conseguem o que queriam.
–O que?
–Fotos, gente os admirando, se transformam em obras de arte tanto que algumas vezes os humanos fecham as ruas, queimam pneus e madeira como se fosse incenso como faziam antigamente aos deuses. Mas tudo tem um preço, depois de muito fogo, barreiras e gritos de louvor às crateras, vem as máquinas e fazem o que mais odiamos, o tal recapeamento que nos sufoca, asfixia por determinado tempo nos forçando a uma morte silenciosa e cruel. Mas ainda bem que desde que nasci não tive o desprazer de morrer dessa forma tão desumana.
–Há quanto tempo você é buraco?
–Mais ou menos 21 anos.
–Sua idade equivale a quantos anos de um ser humano?
–Mais ou menos 900 anos. Se eu fosse humano seria o Matusalém.
–Todos os buracos tem essa expectativa de vida?
–Não. Em cidades onde os humanos são bravos e, o que vocês chamam de cidadãos conscientes e principalmente onde mora um monstro chamado probidade, duramos apenas dias. Mas aqui em DOURADOS desde que chegamos fomos muito bem recebidos, ninguém nos incomoda, essa cidade é tão boa para nós que deveria ser chamada de “Eldorado dos Buracos”.
–Por quê?
–Seria o mais justo, pois nisso estaria toda nossa gratidão por tudo que os douradenses e principalmente os políticos fizeram por nós desde que aqui chegamos há mais de vinte anos, quando fomos expulsos de outras cidades.
–O buraquinho ai fala como se fosse muito intimo dos políticos desta cidade.
–Não digo intimo, mas parceiros.
–Como assim?
–A gente movimenta a economia da cidade.
–Agora que eu não entendi mesmo.
–Relaxa ai tio. É o seguinte: a empresa que nos tapa vem até nós faz o serviço e para nos deixar numa situação confortável nos cobre com material de quinta categoria, ai é vir uma chuva e lá estamos nós de novo prontos para outra. E assim vamos passando ano após ano gerando trabalho para o político, para a empresa que tapa os buracos, para o borracheiro, para o mecânico etc., Entendeu tio?
– Não entendi nada, alias você fala demais. Tchau, passar bem até que alguém com juízo e responsabilidade mande te tapar.
Embarquei, dei a partida e rumei para casa enquanto ouvia no rádio “os buracos estão com os dias contados, na semana que vem estará aberta a licitação para a operação tapa-buracos em Dourados”. Desliguei o rádio, pois conclui que estava ouvindo coisas de novo, como se não bastasse conversar com um buraco na Marcelino, ouvia naquele momento a mesma coisa que se ouve sempre que o assunto é buraco. Creio que enlouqueci. Devo de estar com transtorno obsessivo compulsivo. Minha obsessão são os buracos de Dourados. Por mais que não queira, eu os vejo em todas as ruas. Somente eu os vejo. Realmente estou enxergando demais. Decididamente estou louco… Louco de tanto enxergar buracos.




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