Sê tu mesmo
- Davi Roballo

- 30 de nov. de 2020
- 3 min de leitura
O aforismo que intitula esse texto, talvez , seja o mais emblemático e traduzível de toda filosofia nietzschiana, pequeno no formato, porém, rico em consistência, pois, aí pode estar o significado da maior ambição humana diante da vida, ter independência no pensar e no agir, ser o artífice da própria vida.
O problema todo está no vir a ser uno, uma vez que nossos antepassados estão em nós porque nós estamos neles, e sem essa transfusão genética, cultural, de crenças e costumes não seríamos. Vejo aqui uma possibilidade de o indivíduo por si mesmo não existir, pois, mesmo a unicidade defendida por Foucault está amparada e tem suas raízes profundas no que foi herdado da ascendência e essa herança que condensa o que seria o Ser é multifacetada, levando-me a crer na inexistência do indivíduo, mas acreditar na existência do sujeito, o que é totalmente diferente.
Sendo assim, o “Sê tu mesmo”, estaria relacionado a conheça quem tu és, ou parafraseando Píndaro, “Torna-te o que tu és”, que foi inscrito no portal de Delfos como “Conheça a ti mesmo”. A problemática e a dificuldade de realizar-se segundo esses aforismos estão no fato de que teríamos de ser verdadeiros, coerentes e justos, tudo o que não somos, pois, dependemos das influências exteriores a nós que governam o mundo balizado pela falsidade, pela incoerência e pela injustiça transvestida de justiça.
Não conseguiríamos ser nós por nós mesmos, pois, não suportaríamos as pessoas e vice-versa. Nem mesmo transformando-nos em eremitas a viver isolados conseguiríamos nos livrar das questões atávicas que nos constituem e se formos considerar nossa formação cultural esse intento é irrealizável, visto que, nossas ações e decisões no eremitério estariam ligadas a nossa formação como Ser, isto é, as influências culturais, éticas, morais e genéticas estariam conosco nas mais simples decisões e interações com o mundo.
Acredito ser impossível sermos nós por nós mesmos, porque nem mesmo uma máquina consegue ser uma máquina por ela mesma, pois, alguém a idealizou e posteriormente a construiu e se retirarmos dela uma peça ela deixa de ser o que foi programada a ser. Sendo assim, necessitamos de todos os conjuntos que nos fizeram, como a educação, a crença, a tradição, a cultura e a natureza.
Não conseguimos sermos nós mesmos, nem quanto à constituição de tudo o que nos compreende como as características atávicas naturais, culturais e sociais, muito menos quanto à questão abstrata das decisões e relações, visto que, estamos direcionados e presos a conceitos que se fizeram e/ou se constituíram antes de existirmos como sujeito, isto é, nossos valores, escolhas e inter-relacionamentos com a vida que estão sujeitados ao que nos constitui como seres sociais.
O desejo de tornarmo-nos nós mesmos é a maior e a mais impossível de nossas ambições, porque isso significaria a liberdade em sua mais pura essência, mas ser livre é a mais suprema de nossas utopias. Segundo o escritor uruguaio Eduardo Galeano “A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
Ser nós por nós mesmos é impossível, porque teríamos de ser totalmente livres, mas não há como sermos livres até mesmo em nossas mais simples escolhas, ou seja, queiramos ou não, nossas decisões levam a assinatura de nossos pais, professores, colegas, amigos entre outras pessoas, que nos constituíram, que trocaram de experiências conosco.
Tudo e todos estão interligados em canais e ramificações invisíveis que pautam nossas vidas refletindo em nossas decisões e escolhas, tudo aquilo que sedimentamos e colhemos por nosso caminho. Aceitando ou não, somos um conglomerado de experiências alheias, seres constituídos de outros porque não aprendemos a caminhar, falar, escrever, ler, etc. sozinhos.
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