METAMORFOSE
- Davi Roballo

- 3 de out. de 2021
- 2 min de leitura

Trago comigo a certeza
Que quando criança levava comigo
Nuvens carregadas de umidade e amor,
O solo em que pisava era florescido
Pela inocência que fértil tornava tudo colorido
Ao redor daquele
Pequeno que um dia fora eu.
Meu corpo era vestido de alma
E meu coração inundado
De sentimentos sagrados.
A idade veio como um vendaval
Que arrasa terras e desnudou meu corpo
E o vestiu com roupas
Que trouxeram com elas necessidades
Que não tinha quando pequeno.
Meu coração foi vasado pelo supérfluo
E todos aqueles sentimentos caíram
Sobre um solo infértil, no qual
Um dia minha inocência floresceu.
Eu era livre e me tornei escravo de outros,
Mas a pior escravidão se tornou a de meu ego
Que passou a controlar meus passos.
Me transmutei de repente
De criança a adulto e no intervalo
De um e outro tive de passar
Por outra dor de parto, no caso,
A dor da psique que caiu e espatifou-se
No profundo abismo dos homens.
Antes eu era pequeno rodeado de flores
E animais dóceis, mas depois
De minha precipitação feito anjo caído
Passei a conviver com feras
E crianças selvagens que juram ser adultos.
Vejo todo dia por todo lado
Adultos disputando como crianças birrentas
As migalhas de ilusões passageiras,
Como se isso fosse uma chave
Que os liberte dessa loucura
Que os consome na mesma velocidade
Em que eles consomem o dispensável
E a hipnose do inútil.
Aqui e ali existem jardins
Com flores mortas com aparência
De flores vivas,
Há por todos cantos fontes com água suja
Que todos juram ser cristalina,
Água que bebem e mais sede sentem.
Pelas ruas, guardas mal encarados
Capturam e assassinam nos becos escuros
Tudo aquilo que carrega pureza e inocência,
Pois, são considerados uma ameaça a tudo
Que é artificial e componha as engrenagens
Do social controle.
As casas estão cheias de garotos e garotas
Metamorfoseadas em couraças de adultos,
Durante a noite enquanto as pessoas dormem
Se pode ouvir o choro baixinho
De crianças presas no corpo de gente grande.




Comentários