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NOSTALGIA DE UM GAÚCHO

Atualizado: 9 de set. de 2025


Tenho o tempo por estrada,

E o vento por camarada,

Sou filho da madrugada

Do pago sul brasileiro.

No clarão do mundo inteiro

Vi nascer minha querência,

Onde a lida é consciência,

E a infância foi professora;

Na coxilha campeadora

Aprendi minha existência.


O minuano, voz severa,

Chora e canta nas coxilhas,

Embala o campo e as trilhas,

Dá lembrança que me espera.

É saudade que tempera

Cada tarde cor-de-estrela,

No horizonte se revela

Feito mel de lechiguana,

Que a doçura soberana

Do pampa nunca cancela.


No fogo do angico ardendo

Vejo Farrapos surgindo,

Com seu brio defendendo

O que o pago ia pedindo.

Na brasa vai se expandindo

A esperança que não cansa,

Na chaleira a confiança,

No mate a fé que consola,

E na campereada a escola

Do gaúcho e sua herança.

Golpe 4

China firme, destemida,

Mãe, prenda, santa, guerreira,

Na trincheira altaneira

Foi raiz da nossa vida.

Enquanto a tropa sofrida

Na refrega se entregava,

Era a china que cuidava

Do ranchito e da fazenda,

Guardando na alma a lenda

Do gaúcho que peleava.

Golpe 5

No guri que corre solto

Vejo a infância macanuda,

A alegria resoluta

De quem cresce sem escolho.

E no seu riso recolho

A lavanda da menina,

Que com graça cristalina

Guardou no corpo a beleza,

Da querência a fortaleza,

Na saudade peregrina.

Golpe 6

Mas a história também fere

Com ciladas traiçoeiras,

Trouxe cruz e missioneiras,

E um destino que não quer.

No pajé morreu a fé,

Nas reduções a esperança,

E a cultura de criança

Foi cortada pela raiz,

Num silêncio que condiz

Com a dor da vizinhança.


Mesmo assim, não se apagou

O clarão desta memória;

Segue viva a mesma história

Que Sepé nos ensinou.

Pois o povo que lutou

Não morreu na ventania,

A verdade resistia

Na guitarra e na poesia,

Na pajada que alumia

O gaúcho em romaria.


E assim sigo nesta lida,

Com coragem e com voz,

Pois a querência é quem nos

Faz de novo dar guarida.

“O eterno não perde a vida”,

Foi Braun quem certo falou,

E na estrofe que deixou

Sigo firme na missão:

Defender tradição e chão,

Que meu pago me entregou.

 
 
 

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