SABER CALAR E SILENCIAR
- Davi Roballo

- 29 de dez. de 2020
- 2 min de leitura
Meu esforço tem sido não ser confundido com minha própria letra, pois uma coisa sou eu, outra coisa, o que escrevo. Se faz também importante não acabar confundido com a mescla inconstante de inquietação e silêncio em que vivo mergulhado.
Não escrevo por ser um ato bonito, escrevo para manter meus demônios internos entretidos e afastados da angústia que é ver o nu do mundo. Assim me mantenho às vezes calado e no silêncio observo o outro para perceber nele o quanto há de mim em seu espelho.
Logicamente escrever é uma terapêutica artística, pois o que a arte? se não um rio que flui agitado, canalizando angústias, mágoas, veneno, o grito calado e a dor de ter de ver as imagens que de nós mesmos escondemos.
É inegável que todo ser humano é um artista com muito potencial, um perfeito escultor com o sublime encargo de esculpir a si mesmo.
O artista que na maturidade aprende a arte de calar diante de quem não possui ouvidos de ouvir. O ser que se entrega à sinfonia do silêncio quando a vida suplica por um pouco mais de alma e de mais contato d’ele com ele mesmo.
O tempo passa e vamos aprendendo, que quanto mais profunda e sábia for uma pessoa, mais tranquilidade e silêncio repousam sobre seus olhos. Que o digam os idosos que não desperdiçaram seus dias de aprendizado.
Quem consegue ouvir o próprio silêncio, aprende a calar tudo aquilo que vê no outro, pois passa a entender que os defeitos que constatamos nas pessoas, na verdade, são reflexos das lacunas que trazemos na alma, visto que, somos espelhos uns dos outros.
Sem aprendermos a calar e a conviver com o silêncio, não vamos conseguir olhar dentro de nossos olhos, porque vamos continuar preferindo ver a imagem superficial e limitada que reflete o espelho.
Cada um de nós carrega um medo secreto de mergulhar profundamente em si mesmo. Por isso, pouco olhamos para dentro de nossos olhos, pois para isso é preciso coragem de enfrentar a si mesmo, coragem que chega apenas com a maturidade na arte de calar e silenciar, quando for preciso e oportuno.





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