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Sincericídio, a verdade é inconveniente

 Sincerocídio, a verdade é inconveniente






Estamos vivenciando uma simbiose existencial gritante nesses dias em que aos poucos impedimos que a birra e animosidade infantil nos abandonem e cedam espaço para os atributos da vida adulta. A hipocrisia e o mundo de aparências estão convivendo tão bem, que podemos ver adultos disputando espaço social como criança, requerendo para si as atenções circundantes. O frenesi do “aparecer” e do “ter” sobrepujando o “ser”, em detrimento ao tempo que se esvai levando a juventude e as oportunidades, que negligenciadas pairam na linha do horizonte da vida.

A vida moderna tem se tornado tão artificial e medíocre, que ilusões são preferíveis à realidade. Neste contexto a sinceridade torna-se arma de fino fio capaz de amputar partes essenciais de relações interpessoais. Estamos tão acostumados a verdades parciais, que a sinceridade no seu mais completo aspecto é um suicídio social, pois se torna inconveniente reconhecermo-nos como realmente somos, ou seja, é mais cômodo e agradável ver-nos como nos idealizamos. A mentira mais doce é aquela que aplicamos a nós mesmos.

Existem pessoas reclusas por padecerem do mal “sincerocídio”, pois a sinceridade faz com que se tornem algozes de si próprias e de seus entes. As pessoas exigem a verdade de seus interlocutores, mas depois de obtê-la não aceitam os espinhos que revestem uma sinceridade, alimentando assim uma ofensa e\ou uma afronta. Há hipocrisia de nossa parte quando exigimos a sinceridade de outro, pois que na verdade o que queremos é ouvir aquilo que entre de acordo com a nossa própria idealização de ser.

A verdade nua e crua sempre será inconveniente. A verdade não possui o poder de construir, mas de destruir. Destruir projetos, relações, anseios é uma bomba que deve ser muito bem manuseada. Nem todas as pessoas estão preparadas para a sinceridade, pois que o mundo é feito de verdades parciais e até mesmo de ocultação da verdade para evitar a destruição de relações, reputações e projetos. Quem se reveste da sinceridade na sua mais pura essência morre lentamente alimentando o suicídio social inconsciente.

A regra social que impera desde há muito é clara: “não falar tudo o que realmente pensamos”, este é embrião que construiu a hipocrisia vigente nas relações humanas em todo o planeta e, é de sua seiva que nos alimentamos para adquirir a sobrevivência e sermos considerados seres sociais por excelência. Falar estritamente a verdade, não compensa, pelo contrário, nos arrasta para os torvelinhos do isolamento. Como falar mentiras também tem suas consequências, o melhor a fazer é adaptar a verdade de forma que ela não machuque ou cause destruição, pois que a vida a respeito das relações sociais é sustentada por um fio tênue, o fio de Ariadne.

 Sincerocídio, a verdade é inconveniente

 
 
 

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